Um casamento conturbado pela
perda de um filho recém-nascido, uma esposa em depressão e um marido
necessitado de uma atenção que ele não recebe. Isto faz com que Odorico busque
algo a mais fora de seu relacionamento, após descobrir os encantadores olhos negros
de Olga que o seduziu no momento e que compartilharam a primeira taça de vinho
na festa da cidade, enquanto Madelaine vivia em um mundo de sonhos – e
pesadelos.
Ø
Capítulo 01
Madelaine encontra-se deitada de
camisola em sua cama, com os cabelos desgrenhados e o canto dos olhos sujos.
Enquanto o odor de sua falta de banho impregnava o quarto, ela sonhava com seu
filho. Ele vinha em sua direção e sorria para ela, de uma maneira que a fazia
sentir-se novamente viva. De mãos dadas, caminharam em silencio por um bom
tempo pelo campo, até finalmente sentarem-se sobre uma pedra e ele
sussurrar-lhe em seu ouvido:
— Continue firme mamãe, levante-se e ame a si mesma e
a teu marido. Ame antes que tudo o que reste seja o amor desperdiçado. Ame
antes que não seja mais possível amar.
Madelaine abriu os olhos, decidida a
mudar sua visão do mundo, antes que fosse tarde demais. Já tinha perdido muito
tempo, e além do tempo tinha perdido muito amor que ignorava. Saiu da cama e
foi direto para o banheiro, dar uma ducha em sua vida, limpar toda a sujeira
acumulada em sua alma. Lembrava-se vagamente de que seu marido iria a algum
lugar hoje, porém não sabia onde. Ao chegar na cozinha, percebeu o panfleto que
anunciava a festa da cidade. Era para lá que seu caminho estava traçado, em
busca de sua antiga vida de volta.
Ø
Capítulo 02
Como que de uma maneira incontrolável, as
mãos de Odorico encontravam-se em volta das cinturas de Olga, aquela linda
mulher que lhe olhava de uma maneira onde perdia-se em tentação. Era naqueles
lábios que encontrava sua tão desejada atenção, o amor que tinha perdido há
tanto tempo. Ao som da música distante, atrás de algumas árvores que ficavam ao
redor do estacionamento, os dois trocavam carícias, sedentos por um carinho e
atenção que choravam por sua falta.
Madelaine
dirigia seu Caravan 77, coberto pelo pó que ali pousava sobre o tempo em que
tornou-se inutilizado. Ao chegar na entrada do estacionamento percebeu o carro
de seu marido, um Maverick 76 preto
parado próximo a algumas árvores mais distanciadas. Estacionou seu carro ao
lado do dele, e após trancar o carro, percebeu vozes e uma movimentação
estranha logo atrás das árvores. Curiosa como sempre fora, decidira verificar o
que estava acontecendo ali. Ao passar por entre os troncos já meio velhos,
reconheceu os cabelos castanhos de seu querido marido imediatamente. Porém ele
não estava sozinho. Estava envolto a uma loira de olhos mais negros que o céu
da noite.
Ø
Capítulo
03
Acobertada
pela folhagem, a presença de Madelaine não fora percebida pelos dois amantes,
que no momento tinham sua atenção voltada apenas um para o outro, sem perceber
nada que estivesse ocorrendo em seu redor, podendo o mundo acabar e os dois
morrerem aos beijos e abraços. A esposa dominada pelo ódio de ser traída, recordava-se
muito bem de que seu marido guardava um calibre 38 embaixo do banco do
passageiro em seu automóvel. Com os mais cuidadosos movimentos, dirigiu-se até
o carro de seu esposo, para que não despertasse a suspeita de ninguém, e com
esperança de que estivesse destrancado, puxou o trinco com calma. E para a sua
sorte, Odorico tinha uma memória horrível, e desde os tempos de namoro vivia
deixando o carro sem trancar. Não sabia como nunca tivera o veículo roubado.
Como
de costume, o revólver estava o mesmo local de sempre. Retirou-o com cuidado,
verificou a munição e escondeu-o na bolsa. Porém, junto com a arma, havia um
pequeno frasco com um líquido dentro – na etiqueta dizia que era Clorofórmio.
Madelaine sabia muito bem para quê servia, alguns anos trabalhando como
enfermeira serviu-lhe para ter alguns bons conhecimentos.
Entrou
em seu Caravan e retornou para casa. Recostou-se em uma poltrona meio mofada
pelo tempo e ali aguardou o retorno de seu marido.
Ø
Capítulo
04
Odorico abriu a porta e
surpreendeu-se ao ver sua mulher fora da cama.
—
Madelaine! Finalmente decidiu sair da cama!!
—
Percebi o quanto eu estava perdendo, ficando apenas em meu mundo. Inclusive
perdi várias coisas já, e uma delas é você.
—
Querida, não diga isto, sempre estarei contigo. – Um abraço surgiu entre os
dois.
Em
uma das mãos de Madelaine ela segurava firmemente um pedaço de pano, molhado
com o clorofórmio encontrado no Maverick. Neste abraço da morte, Madelaine
colocou o pano no rosto do marido, fazendo com que ele caísse quase
imediatamente.
A
calma com que Madelaine manipulava a faca de cortar carnes, já um pouco
enferrujada era impressionante. Teve um pouco de dificuldades para tornar-se
viúva, pois a faca já não cortava a carne com tanta facilidade. Porém, mesmo de
modo dificultoso, conseguiu perfurar a garganta de seu amado. Amado que tinha
abandonado seu amor. E que agora abandonaria sua vida.
Após
tirar-lhe o brilho da vida de seus olhos azuis, arrastou-o até o quintal no
fundo de sua casa, onde o muro era alto o suficiente para que ninguém
desconfiasse de nada. Ali cavou por 2 dias, até o buraco ter uma profundidade
suficiente que não deixasse a alma de seu falecido escapar.
Odorico
foi dado como desaparecido após a festa, sua esposa não sabia de nada, pois era
uma pobre doente e não saía mais de sua cama. Filhos não tinha – o único que
tivera morrera quando tinha apenas 5 meses de vida, vítima de uma forte
tuberculose.
Um
amor desperdiçado, uma alma sedutora e um abraço da morte.